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Uns “chinelões”. O trio que forma a cultuada e lendária banda gaúcha Graforréia Xilarmônica não passa três “bagaceiros chinelões” no alto de seus quarenta anos (será que tô julgando os pés de galinha errados?), que sabem como viver a vida e gozar da liberdade que tem para fazer o que der na telha. Na banda, formada em 1987, Frank Jorge e Marcelo Birck reuniram-se para um ode à Jovem Guarda e às letras referentes a bebedeiras, amigos e piadas internas. A banda se tornou uma referência tão forte no novo rock nacional que o trio volta e faz show quando bem entende. Dessa forma saiu o disco Graforréia Xilarmônica ao vivo, lançado pelo selo Senhor F. Alí está o começo de tudo: o revival aos 60’s, as letras irreverentes e uma certa despretensão que deu continuidade a boa parte do rock gaúcho. Da formação atual, que já dura vários anos – desde a saída de Marcelo, fazem parte o baterista Alemão Birck e o inusitado Carlos Pianta.
Carlos é um piadista. No jeito singular de tocar guitarra, ele consegue ser engraçado sem sequer abrir a boca. No decorrer das 19 músicas que compõe o registro ao vivo, a sensação de desafinação e de acordes fora do tom faz com que o número pareça uma grande piada. Não tem como não rir quando, do nada, entra um solo super rápido (desses de treinamento de escala) no final de uma música, completamente fora de contexto. Por outro lado, a guitarra de Pianta tem uma proposta tão interessante quanto o conceito (?) do grupo.
Em meados dos anos 90, quando conheci as músicas Você foi embora e Eu, presente na coletânea A Vez do Brasil, da rádio paulistana 89 FM, achei a banda um presente do rock brasileiro. Na época, o rock gaúcho para mim era Engenheiros do Hawai, Nenhum de Nós e Replicantes – fã de todos. Cascaveletes ainda estava muito longe de meu conhecimento, e nela estava o gênio Frank Jorge, tocando seu baixo no grupo que revelou o malucão Flávio Basso, o Júpiter Maçã. Com o fim dos Cascaveletes, Frank Jorge monta a Grafórreia Xilarmônica, levando para o novo grupo o mesmo ar nostálgico de sua banda anterior, mas colocando incisivamente em suas composições suas influências sessentonas. De lá saíram pérolas como Nunca diga, Meus dois amigos (um sincero pedido de desculpas por ter furado um churrasco com os brothers), Eu, Colégio Interno, Dênis, Você foi embora, Empregada, 40 anos e a clássica Amigo Punk (na ponta da língua de 11 entre cada 10 roqueiros gaúchos). No disco, a emoção bate quando Frank e sua trupe mandam Amigo Punk. O “parauêra auêra-a-a” do público antecipando a introdução deixa bem claro a importância da Graforréia Xilarmônica para o rock brasileiro.
E não é apenas nas guitarras toscas, letras divertidas e referência à época da brilhantina que Graforréia Xilarmônica ao vivo se torna um discão. O quarto disco da banda, em 20 anos, mostra que quando a despretensão e a facilidade em fazer uma canção pegar é o que faz da banda um eterno marco no rock nacional. Sem fórmulas ou propostas, só chinelagem.
ROCK BLOCKS
- Mulheres à beira de um ataque de riffs¸ comemoração ao mês das mulheres, reúne na próxima sexta-feira, 3, no Mormaço o mewlhor do rock de saia de Belém. Madame Saatan, A Euterpia, Suzana Flag e Álibi de Orfeu se apresentam junto a participações especiais das vocalistas das bandas Ephemerals, Síncope, Senhora Destruição e Maristela. Na discotecagem tem Vanja Fonseca (Turbo) e Sammliz (Madame Saatan). Só perde quem não gostar da fruta nem de rock ‘n’ roll da melhor qualidade.
- Grande baixa na música paraense. Faleceu na terça-feira passada um dos melhores músicos de Belém: Heber Cirino, ex-Sherazade e ex-Viridiana. Heber sofreu um ataque cardíaco fulminante na manhã de terça-feira em Manaus, para onde havia se mudado há poucos meses. Em seu Fender Fretless, o baixista tocava de maneira hipnótica. Lembro quando produzi uma festa com a banda Viridiana. Na passagem de som, fiquei boquiaberto com a maneira com que Heber dominava seu instrumento. Fica em paz, cabôco.
Publicado originalmente todas as segundas no Jornal Diário do Pará
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