Inquietação deveria ser palavra- chave na cesta básica da criação artística. Deveria. Há, no caminho, um dilema anterior que fere [ou dificulta] a idéia de se perseguir o novo - ou, ao menos, o diferente, o autoral. E esse dilema se chama sobrevivência.
Viver PARA a arte será sempre um projeto de vida da maior dignidade - desde que se tenha, claro, interesse e [nunca é demais...] algum talento. Viver DA arte já são outros quinhentos. Porque entre um e outro há um componente chamado mercado. E o mercado [especialmente no caso da cultura, onde ele ainda está mais para quitanda...] tem lá os seus caprichos [vícios?] e necessidades [vicissitudes?].
O cenário da música in[ter]dependente "sobretudo no escaninho do rock" talvez tenha encontrado primeiro as respostas para a necessidade de conciliar as duas coisas, no confronto com os demais recortes da produção artística e cultural.
As bandas que mais me interessam [empolgam, surpreendem] hoje no país refletem isso. Não me parece acaso que, na meia-dúzia de mais-mais da minha retro[ per]spec[afe]tiva 2007/2008, listada semana passada, não haja nenhum artista do eixo RJ-SP.
[Recapitulo agora, pra você que acaba de chegar da praia. São eles: MACACO BONG (Cuiabá/MT), LOS PORONGAS (Rio Branco/ AC), MÓ- VEIS COLONIAIS DE ACAJU (Brasília/ DF), DEAD LOVERS TWISTED HEART (Belorizonte/MG), FILOMEDUSA (Rio Branco/ AC) e MADAME SAATAN (Belém/PA).]
O que unifica os artistas do meu rol de queridinhos do momento, numa visão panorâmica, talvez seja a tão desejada "atitude" - terminho desgastado pelo mau-uso, que hoje vai muito além de cuspir no chão e xingar a mãe sobre o palco. Atitude, nessa geração, é fazer a qualquer custo e se impor apenas [ou principalmente] pelos próprios méritos artísticos.
O circuito in[ter]dependente de rock conquistou [construiu!] isso pelas próprias pernas [e braços] no Brasil, e apenas neste século XXI. E o primeiro ponto essencial é que aquilo o que um dia foi um desejo de "ser star", tornou-se um projeto de "ser/estar": sucesso, nestes tempos, é viver do que se faz [pagar as contas, basicamente], em vez de buscar fama e fortuna.
Isso, sozinho, não transforma nenhum músico em artista, claro. Mas é uma feliz coincidência constatar que, no caso das bandas citadas, é essa a postura dominante.
Macaco Bong me deixou transtornado quando vi [de surpresa e supetão, numa apresentação não-programada, feita, generosamente, para saciar minha curiosidade] na Casa Fora do Eixo, QG de shows daquele projeto-de-dominação-do-mundo chamado Espaço Cubo, em Cuiabá.
Power trio instrumental, o MB é de uma visceralidade brutal - guitarras distorcidas típicas do rock mais nervoso, mas com tudo feito na raça [ou seja, sem o uso de pedais] e, de quebra, um guitarrista black-power (Kayappy) que carrega caixas, vende cerveja no bar, organiza os eventos da Cubo Corporation e, no palco, vira um mix de Jimi Hendrix com Lenny Krevitz. Faz a linha artistaguerreiro [ou artista-pedreiro, como eles preferem por lá], sem deixar nenhuma das petecas cair.
Os acreanos do Los Porongas me empolgam, em parte, pelo mesmo motivo. Hoje baseados em SP [onde dividem uma república], organizam um festival incrível [Varadouro, no segundo semestre, em Rio Branco] e, igualmente, atuam vivamente na tentativa de organizar o cenário de indies & pendentes.
Com um guitarrista habilidoso e inventivo [João Eduardo, muito acima da média], recicla referências variadas [sobretudo do rock oitentista, brasileiro e internacional], mas faz algo novo disso tudo [na linha, "parece, mas não é"]. Tem, sobretudo, unidade de conceito - com um vocalista (Diogo Soares) que canta "em transe" e é, também, um letrista excepcional.
Assisti Madame Saatan e Filomedusa nesse mesmo festival, o Varadouro. E ambas me pegaram pelo mesmo motivo: duas vocalistas carismáticas, intensas [e cheias de charme], ainda que em registros opostos. Sammliz, da paraense Madame Saatan, é catártica, tresloucada [bota a baiana Pitty no chinelo...], à frente de uma banda peso-pesada, devota da velocidade e dos altíssimos decibéis.
Carol Freitas, do Filomedusa, é seu avesso. Frágil, de gestos contidos, extrai dramaticidade da miudeza, na inflexão da voz, no movimento delicado de mãos e braços - com o suporte de uma banda excepcional [autoral, nada previsível] e de um baixista surpreendente [Daniel Zen, um dos criadores do Varadouro, atual secretário de cultura (!) do Acre].
Já os brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju são, numa palavra, uma pândega. Fazem do show [uma espécie de ska debochado] uma algazarra sem limites, com um vocalista (André) serelepe que só, uma artilharia de metais matadora [cinco dos dez (!!!) integrantes] e muita [mas muuuita] movimentação no palco e interação com a platéia.
Publicado no Jornal O Tempo (MG) em 04/01/2008
Por Isarael do Vale*
*Israel do Vale, 40, diretor de programação e produção da Rede Minas.
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