MEMÓRIAS PÓSTUMAS DO SE RASGUM NO ROCK
Algum tempo hesitei se devia abrir estas Memórias pelo principio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o show dOs Velocípedes ou do Telaviv. Suposto o uso vulgar seja começar pela égide do festival, apenas uma consideração me levou a adotar diferente método: o fato de que acontecimentos mais recentes estão mais frescos na minha memória.
Dito isto, a terceira edição do Festival Se Rasgum expirou às 23 horas e 30 minutos de um domingo do mês de setembro de 2008. A noite passada. Os produtores do Festival subiram ao palco, no final do show pesadíssimo do Telaviv, para agradecer ao público que prestigiou um evento que marca uma passagem na história do festival.
Em suas duas primeiras edições, o Se Rasgum no Rock se apresentou como um festival independente comprometido com aquilo que carrega no nome, e teve em seus head-lines bandas que carregam em sua essência elementos combinantes com a aura do festival: o rock and roll e a batalha do se fazer música independente.

Uma das surpresas, a banda cearense O Garfo
Porém, mais do que apoiar o rock independente em uma cena inconstante como a de Belém do Pará, o festival sentiu a necessidade de agregar pontos de vista diferentes ao se falar de música independente no Estado e foi por isso que nesta edição, que neste momento deve estar sendo desmontada do espaço do African Bar, o evento quebra os padrões conjugais americanos e assume uma verdadeira orgia com a música independente, seja ela rock, rap, brega ou carimbó.
O domingo foi uma noite intimista, só estava ali quem realmente sabia o que iria rolar. Nada de muita frescura com troca de palcos, dor de cabeça pra conseguir meia-entrada ou tietagem com semi-gringos. Todos ali já se conheciam, e muito bem. Nove bandas paraenses dominaram o palco Bafafá Pró Rock com toda pompa e maestria de uma derradeira noite de festival. O Curimbó de Bolso, Paulo Luamin e Clepsidra foram dignos representantes da popular música paraense. Como já era de se esperar, o Johny Rockstar deu a largada na bagunça e na euforia do público presente desarrumando as primeiras rodas punks da noite. A partir daí elas só cresceram com o hard core do Rennegados e do Delinqüentes que fizeram uma das seqüencias mais bem combinadas do festival. O Suzana Flag deu uma amenizada no clima mais que pesado e selou sua recente volta ao cenário depois de tanto tempo trabalhando duro em um novo cd. E fechando o domingo, o Telaviv retornou com a bagunça e o “bate-cabeça”.

O paraense DJ Maluquinho colocou o público pra dançar seu tecnobrega
A noite anterior, o sábado, foi uma agradável surpresa. Confesso que não confiava na aceitação de metade das bandas daquela noite, mas logo na apresentação dos cariocas da banda Do Amor a desconfiança foi por água abaixo. Os caras conquistaram o público paraense tocando carimbó, e não foi “forçação de barra”, não. Os integrantes são fãs do ritmo há muito tempo. “Conhecemos o carimbó na nossa adolescência e gostamos muito, não podia chegar nada de novo sobre o carimbó no Rio de Janeiro que a gente já ia atrás e levava tudo e, agora tocar em Belém do Pará cantando uma música emblemática “Isso é Carimbó” é mais que uma realização pra gente que gosta tanto deste ritmo”. Confessa Ricardo Dias Gomes, baixista do Do Amor. Outro cara que arrebentou foi o catarinense-alemão-alagoano Wado. O cara já rodou o mundo com o seu “brazilian eletro funk disco reggaeton afoxé” e pode pôr no seu currículo, sem medo de exagerar, que foi uma das revelações do III Festival Se Rasgum. Esta noite ainda contou com as paraenses Destruidores de Tóquio, Filhos de Empregada, Zueira de Fumanchú, Ataque Fantasma e Metaleiras da Amazônia, participaram ainda River Raid, Manacá e os suecos do Shout Out Louds e ainda contou com a festança do Autoramas encerrando a noite. “Tocar em Belém é sempre uma festa, adoramos tocar aqui e nos alegra muito verificar que o público para o rock independente tem crescido muito na cidade”. Conta o líder do Autoramas, Gabriel Thomas.

Canastra
A sexta-feira foi um momento corriqueiro de tensão, pelo menos pra quem já acompanha o festival e está acostumado com a cultura do atraso que mais uma vez se prova que é causado por uma relação de desconfiança entre organizadores e público. A galera não entra porque acha que ainda não vai começar e o festival não começa porque ainda não tem público. Pra se acabar com esse impasse, pelo menos em um dos lados, o festival teve um atraso razoável, mas que teve um gosto azedo para bandas como Os Velocípedes e Vinil Laranja que talvez não tenham recebido a atenção que merecem. O Festival debuta mesmo, com os amapaenses do Mini Box Lunar e os cearenses dO Garfo, que horas depois do fim da primeira noite já recebiam status de revelações do festival na comunidade da Dançum Se Rasgum no Orkut.
Lembra do discurso da mudança de postura do festival que citei no início deste texto? Os responsáveis para anunciar a ruptura com o rock foram os caras do Sequestrodamente, banda de rap que se sentiu em casa fazendo seu show ao lado de skatistas que improvisavam manobras no mini-ralf montado ao lado do palco. O “cult” e o “retrô” foram bandeiras que balançavam subliminares por cima dos palcos de Tom Bloch e Canastra, respectivamente. O DJ Maluquinho foi a maluquice do festival, o tecnobrega puro com as versões esdrúxulas de hits internacionais e a irreverência do figurino da banda foram sensação e colocaram o DJ Maluquinho no hall dos destaques deste dia, mas nada comparado ao insano, pervertido e profano show dos cearenses do Montage. Daniel Peixoto usou o calor da cidade como tempero na sua exaltada performance, e não houve quem não emitisse uma opinião a respeito da apresentação. A sexta-feira terminou com a versatilidade de Mestre Laurentino e o reencontro inflamado do Plebe Rude com o público paraense.

A banda paraense de HC Rennegados quebrando tudo!
Assim foram os três dias do, agora, III Festival Se Rasgum. Essa edição me causou uma estranheza difícil de explicar. De antemão desconfiei da escalação e fui constantemente surpreendido, não apenas por aquilo que não conhecia, mas por expectativas levemente formadas. Algumas tantas correspondidas - como a grata surpresa na qualidade dos shows de bandas como Do Amor, River Raid, Wado e Canastra - e outras nem tanto como no caso do desprestígio do público aos laboratórios por onde passaram Os caçulas da Vila, Sambiose, Alma Livre Sound System, Caburé, Sonora Iqoaraci e Juca & Power Trio.
No geral, é inegável o amadurecimento do festival, que não teve dificuldades no rompimento e comprometimento com apenas um estilo. A Dançum Se Rasgum Produciones, realizadora do evento, garantiu ao público nova edição no ano que vem.

Os cariocas do TOM BLOCH.
Fotos de Hugo Góes
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