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do lado mais escuro
"CORAÇÃO DE METAL"RELEASE
STRESS Por Ricardo Batalha (Roadie Crew) 1974 A importncia da banda paraense Stress para cena nacional irrefutvel, pois esta foi a primeira a registrar um lbum de Heavy Metal no Brasil. O incio desta histria se volta ao longnquo ano de 1974, quando Wilson Motta e Pedro Lobo - dois colegas de um clube de natao de Belm (PA) - perceberam que tinham algo em comum, o Rock. O cenrio do Rock brasileiro da dcada de 70 possua bandas de vrias vertentes, indo do Hard Rock, Glam Rock, Rock Progressivo e Psicodlico ao puro e bsico Rock And Roll. A cena estava sendo consolidado em nomes como A Barca do Sol, A Bolha, Arnaldo Baptista & Patrulha do Espao, Bixo da Seda, Casa das Mquinas, Made In Brazil, Mdulo 1000, Mtuo Perptuo, O Peso, O Tero, Os Lobos, Os Mutantes, Raul Seixas, Som Nosso de Cada Dia, Spectrum, Tutti Frutti, Utopia, Veludo, Vmana, entre outras. At tnhamos a nossa imprensa especializada. Mesmo com o encerramento das atividades da edio brasileira do jornal norte-americano Rolling Stone (editada por Luiz Carlos Ferreira Maciel), havia a publicao "Rock, A Histria E A Glria" e a revista Pop, alm da pgina semanal Rock coordenada por Carlinhos "Pop" Gouveia no jornal A Folha de S. Paulo. Na TV, os 'rockers' no tiravam o olho da TV Globo no cultuado programa "Sbado Som" (1974), apresentado pelo jornalista, compositor, escritor, roteirista e produtor musical carioca Nelson Motta. Antes disso, porm, o jargo "Hello, Crazy People" criado pelo j falecido discotecrio, jornalista e radialista Newton Duarte, o "Big Boy", era muito conhecido. Big Boy teve espao nas rdios cariocas e na TV Globo, no programa "Hello, Crazy People" (1972) e substituindo Nelson Motta no "Sbado Som". No panorama internacional daquela poca o estilo mais pesado do Rock estava a todo vapor, com lanamentos de lbuns marcantes, como as estrias do Judas Priest (Rocka Rolla), Kiss (Kiss), Rush (Rush) e Bad Company (Bad Company), alm do Deep Purple surpreendendo com Burn e Stormbringer, o Aerosmith com Get Your Wings, o Scorpions com Fly To The Rainbow, o Budgie com In For The Kill, o Blue yster Cult com Secret Treaties, o Montrose com Paper Money, o Thin Lizzy com Nightlife, o Queen com dois trabalhos - Queen II e Sheer Heart Attack, o Nazareth com Loudn Proud, o U.F.O. com Phenomenon, entre muitos outros. Fora isso, o Rock Progressivo era bem representado pelo Yes e o King Crimson, no mesmo instante que o estilo Glam Rock ainda tentava se manter, tendo amparo em nomes como Sweet, David Bowie, Mott The Hople, T-Rex, Gary Glitter e o Alice Cooper Group, que milagrosamente se apresentou no Brasil com recorde de pblico em abril daquele ano em que General Ernesto Geisel substitui o General Emlio Garrastazu Mdici na presidncia. Nos Estados Unidos, se o panorama poltico no era dos melhores, com a renncia do presidente Nixon aps o escndalo de Watergate, na rea musical quem estava no auge da popularidade era o Grand Funk Railroad, com o cover The Loco-Motion, tirada do lbum ShininOn e que obteve a primeira posio das paradas americanas. Mas enquanto o festival "California Jam" (EUA) era realizado, o filme "O Poderoso Chefo 2" ganhava o Oscar, o piloto Emerson Fittipaldi (McLaren) dava mais uma alegria ao povo brasileiro com o seu segundo ttulo na Frmula 1, o Vasco sagrava-se campeo Brasileiro e a seleo alem faturava a Copa do Mundo batendo a Holanda, os amigos Wilson Motta e Pedro Lobo se reuniam com seus violes e ficavam tirando msicas do Black Sabbath, Slade, Led Zeppelin, entre outras. Num dado momento a dupla resolveu adicionar outros msicos para a formao de uma banda. Wilson ficado sabendo que seu colega de escola Andr Chamon possua uma guitarra e o convida. Andr, por sua vez, traz consigo seu amigo de infncia e de escola Leonardo Renda, que j estava estudando piano. Apesar de ter uma guitarra, Andr logo resolveu que seria baterista e emprestou sua guitarra para Wilson. Leonardo comprou um teclado e Pedro outra guitarra. Para o baixo foi chamado um amigo em comum, Paulo Lima. Os primeiros ensaios serviram para que os membros, ento com mdia de quinze anos de idade, conhecessem melhor seus instrumentos. Ser roqueiro no Brasil, alm de coisa rara era sinnimo de rebeldia, ainda mais que predominavam os modismos impostos pela mdia nacional. Contra todas as tendncias culturais em uma cidade ainda provinciana como Belm, surgia o embrio do Stress. Ainda com o nome Pingo D'gua - que foi dado devido ao formato de lgrima deitada no bumbo da antiga bateria da marca Pingim -, Wilson Motta, Pedro Lobo, Andr Chamon, Leonardo Renda e Paulo Lima estavam embalados e j ensaiavam em seu repertrio covers de bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Nazareth, Sweet, E.L.P. e Rolling Stones. Em julho de 1974, Pedro Lobo retorna para o Rio de Janeiro, devido transferncia do emprego de seu pai. Justamente naquela poca, a cidade natal de Pedro perdia a rdio Rock Federal AM, que estava no ar desde os anos 60 e acabou virando Manchete AM. Nesta rea, felizmente, tempos depois o citado Big Boy podia ser ouvido na rdio Eldorado FM "Eldo Pop" (RJ), dando espao ao Rock de qualidade. Mas como Pedro Lobo estava ausente e bem longe, Wilson assume provisoriamente o vocal e a guitarra. Em fevereiro de 1975 Wilson comea a estudar na Escola Tcnica Federal do Par, onde conhece Roosevelt Cavalcante, seu colega de turma no curso de Eletrnica. A amizade comeou rapidamente, devido algo em comum, mais uma vez, o Rock. Por ser um atleta veloz nas competies estaduais de remo, Roosevelt foi apelidado pelos colegas de "Bala". Alm do esporte, Roosevelt sempre teve uma grande afinidade com o Rock, e embora nunca tivesse pensado em ser msico e vocalista, desde a infncia era uma criana diferenciada e tinha o Rock na alma. Com a amizade, recebeu o convite para ir ao ensaio da banda Pingo D'gua, especialmente depois que Wilson o ouviu cantarolando a msica Rock And Roll do Led Zeppelin no fundo da sala de aula. Como no apareceu, Wilson resolveu busc-lo em casa e finalmente lev-lo ao ensaio. Chegando l, Wilson o apresentou aos outros msicos, dizendo: "Pessoal, esse o 'Bala', o novo vocalista da banda". Tomado de surpresa pela apresentao, "Bala" cumprimentou Andr e Leonardo, ainda tentando digerir aquela informao, pois, jamais supunha que tivesse talento para cantar e sequer tinha experimentado soltar a sua voz. Na verdade, "Bala" achava que aquela fosse apenas uma simples visita como expectador do ensaio do Pingo D'gua. "Ainda lembro que o Wilson me pediu para cantar uma msica do Nazareth - logo de quem! -, me perguntando se aquele tom estava bom. E eu tinha alguma idia de o que era tom? (risos). Cantei muito timidadamente, afinal era minha primeira vez. Quando terminei percebi que a galera tinha gostado. Experimentamos outras msicas e acho que me sa bem. Acabei pegando gosto pela coisa e no faltei mais aos ensaios e virei vocalista do dia para a noite", relembra Roosevelt "Bala". As primeiras apresentaes com a nova formao aconteceram no ano seguinte, quase sempre em festas de aniversrio e festivais escolares, pois tudo ainda no passava de pura diverso para os msicos. 1976 No final de 1976 ocorre nova alterao na formao, com a entrada do guitarrista Pedro Valente. Alm disso, com a sada de Paulo Lima - que costumava faltar muito aos ensaios -, Wilson assumiu o baixo. Considerado um msico extraordinrio, Pedro abriu novos horizontes e a banda passaria a ser encarada de forma mais profissional ao invs de apenas ser tida como diverso em festinhas. Segundo Roosevelt, a entrada de Pedro foi uma passagem engraada na carreira do Stress. "Eu e o Wilson estvamos andando pelo comrcio quando ouvimos uma msica do Nazareth tocando numa loja de discos. Ficamos curiosos para ver quem estava colocando aquela msica para ouvir, j que era absoluta raridade se ouvir aquele estilo em Belm. Chegamos l e vimos um cara de culos, aparentando ser meio intelectual, segurando a capa do disco e passando as faixas. Quando chegamos bem perto vimos numa TV ligada na loja uma chamada para o programa de fim de ano da rede Globo. Pasmem! 'Rock Concert Especial' na virada do ano, apresentando Premiata Forneria Marconi. Ficamos observando a chamada e fizemos algum comentrio sobre a banda, que no conhecamos, quando o Pedro se intrometeu na conversa dando um dossi completo sobre a banda. A o Wilson perguntou se ele curtia Rock, pois essa era a senha para uma nova amizade. Pedro no s confirmou como disse que tinha uma guitarra. Rapidamente Wilson convidou-o para entrar na banda. Dali fomos para casa do Wilson ouvir umas msicas e o Pedro pegou o violo e comeou a dedilhar a introduo de Stairway To Heaven", explica. Wilson e Roosevelt se impressionaram com aqueles acordes e com a fidelidade do som, j que naquela poca era impossvel o acesso a vdeos, tablaturas, letras de msicas... "O cara tocou vrias msicas que tirou de ouvido! Quando fizemos o primeiro ensaio com o Pedro tocando guitarra, usando pedal de distoro e fazendo os solos at ento sagrados para ns com tamanha perfeio, percebemos que estvamos diante de um gnio", analisa Roosevelt "Bala". Os ensaios se tornaram mais produtveis com a entrada de Pedro e todos os outros msicos comearam a evoluir musicalmente. No entanto, tornava-se necessrio colocar um nome definitivo para a banda, ainda chamada de Pingo D'gua. "Foram usados provisoriamente TNT e Elektra", comenta Bala. Como Elektra, a banda chegou a se apresentar uma nica vez, numa domingueira de um clube da periferia da cidade. "Foi um tanto agressivo para aquelas pessoas comuns que estavam ali nos ouvirem tocando Rock pesado num domingo de manh. Ningum conhecia nenhuma das msicas do nosso repertrio", observa "Bala". Entretanto, o nome adotado posteriormente foi Stress, uma sugesto de Pedro Valente. "Era uma palavra nova para todos ns, mas quando Pedro nos explicou o significado achamos que tinha tudo a ver com o nosso som. Isso sem contar que a grafia e a sonoridade so excelentes. Sem dvida, um nome perfeito para uma banda de Rock", destaca Roosevelt. O primeiro show oficial como Stress, intitulado "Uma escada para o Cu", ocorreu a 10 de outubro 1977, no teatro So Cristvo. Os primeiros shows da banda tinham nomes alusivos a msicas consagradas como "Parania" (Paranoid, Black Sabbath), "Black Night" (Black Night, Deep Purple), entre outras. A partir dessa apresentao, o Stress comeou a conquistar uma legio de fs e admiradores que at ento no tinham nenhuma alternativa para ouvir aquele tipo de msica, a no ser atravs dos discos de vinil que chegavam com atraso de anos s lojas de Belm. Desta forma, os shows se tornaram reunies memorveis de roqueiros, que a partir dali trocavam informaes, discos, firmavam amizades duradouras e passavam a acreditar na possibilidade real do surgimento de um movimento musical forte, como hoje o Rock paraense. Com todo o apoio desse emergente cenrio, onde os prprios fs ajudavam na venda de ingressos, afixao de cartazes e faixas, confeco de camisetas, os shows do Stress passaram a ser realizados em lugares cada vez maiores. 1978 Em 1978 os msicos comeam criar as primeiras composies prprias, tendo como referncias bandas como Judas Priest, Saxon e Foghat. "A idia principal na hora de compor era simples: 'Temos de tocar mais rpido e mais pesado do que qualquer outra banda no mundo'. Ao contrrio da grande maioria de roqueiros de Belm, e at do Brasil, tivemos o privilgio de receber os principais lanamentos e novidades do cenrio metlico fonogrfico praticamente em tempo real, pois, o Leonardo Renda viajava constantemente para a Europa e Estados Unidos fazendo intercmbio cultural e trazia os discos pra gente se manter atualizado. Ouvamos exaustivamente tudo que achvamos interessante e assimilvamos aquelas informaes que serviam de parmetro para nossas composies. Vamos fazer mais pesado que isso. Da, talvez, a explicao para o pioneirismo da banda no Brasil e na Amrica Latina", explica Roosevelt. No ano seguinte, os membros do Stress entram para a faculdade e os shows ficam menos freqentes, porm, cada vez mais bem produzidos e em grandes casas. quela altura, em Belm, a cena j contava com algumas bandas tentando seu espao. Inspirados no Stress, os msicos sentiam que era possvel fazer um som de qualidade, mesmo numa regio do planeta onde a tradio musical era fortemente dominada pela msica regional. Entretanto, Wilson Motta entra para o quadro de funcionrios da Petrobrs e deixa a banda aps o show "Uma Noite Na Floresta", ocorrido a 1 de junho de 1979. A vaga no baixo foi ocupada pelo ento guitarrista Carlos Reimo, que havia se tornado amigo da banda quando procurou o Stress para defender uma msica de sua autoria em um festival da faculdade onde ele estudava. Nesse mesmo evento, o Stress apresentou pela primeira vez suas duas nicas composies at ento: Go To Hell e Stressencefalodrama, ambas com letras em ingls. "Havia uma grande expectativa por parte dos fs com relao linha de composio que a banda adotaria. Quando apresentamos as duas msicas nesse festival, nosso grande nmero de seguidores presentes ficaram impressionados com o som que ouviram. Entretanto, a maioria deles perguntou do que tratavam as letras. Foi nesse dia que resolvemos que as letras das nossas msicas seriam em portugus", explica Roosevelt. Mesmo com o grande desafio, visto que o Rock pesado estava intimamente atrelado lngua inglesa, as letras j prontas foram passadas para o portugus e a partir de ento as demais seriam concebidas dessa forma. "Sabamos que tnhamos boas composies e que se consegussemos somar a elas uma boa mensagem atravs das letras elas ficariam ainda melhores", comenta "Bala". 1982 A mudana no foi s na parte lrica, j que em julho de 1982 Roosevelt "Bala" assumiria o baixo com a sada de Reimo, que era guitarrista de origem e estava insatisfeito na funo de baixista. "Nessa poca eu me tornei funcionrio da Petrobrs, assim como o Wilson, e estava a servio numa cidadezinha no interior do Amazonas quando recebi um telegrama do Andr dizendo que eu teria de assumir o baixo, pois, o Reimo havia sado da banda. Eu pegava o baixo raramente nos intervalos dos ensaios que tinham ficado escassos devido aos compromissos de cada um. Teramos um show dali a uma semana e eu chegaria em Belm somente na vspera do show. No ensaiaramos nenhuma vez e eu no tinha nem um violo para tocar sozinho onde eu estava. Fiz uma mentalizao das notas e toquei as msicas pela primeira vez exatamente no show. Para completar, Leonardo no tocou por se desentender com Pedro na passagem de som. Estreei como baixista numa formao de trio - baixo, bateria e guitarra. O show foi excelente, consegui tocar e cantar com pouqussimos erros. Dali em diante o baixo tornou-se meu aliado inseparvel", relembra "Bala". Com o final da faculdade para alguns, era hora de definir o futuro, pois, Belm j estava muito pequena para o Stress. Em agosto de 1982 os msicos reuniram todas as economias e se aventuraram viajando para o Rio de Janeiro no intuito de gravar o primeiro disco da banda. A deciso foi baseada na qualidade final que o material poderia alcanar, pois l os msicos pretendiam obter melhores condies de gravao, profissionais competentes e equipamentos adequados para se usar no Rock pesado, j que em Belm, segundo os prprios msicos, isso era impossvel de se obter. Os custos para a gravao de um disco naquela poca eram altssimos, algo em torno de trinta mil reais de hoje, fora as despesas de passagem e estada. "O estdio contactado foi o Sonoviso, cujo proprietrio nos assegurou que saberiam gravar o nosso Rock pesado. Aps uma viagem de trs dias de nibus de Belm para o Rio a banda se alojou num nico quarto, cheio de beliches, de uma pequena penso no bairro do Catete. Quando chegamos no estdio o tcnico nos mostrou uma bateria jogada num canto de uma saleta dizendo que era a nica que ele dispunha. Tivemos de mont-la e amarr-la com barbantes e fita adesiva pra que ficasse de p... Era um porcaria mesmo! Eles tinham dito por telefone que no precisaramos levar nada na viagem, pois forneceriam tudo. S que depois ficamos sabendo que cada item do 'tudo' teria um custo adicional. A gravao foi uma correria, tudo foi concludo em dois dias - 3 e 4 de agosto de 1982, em apenas dezesseis horas de estdio. O resultado foi frustrante. No era nada daquilo que costumvamos ouvir nos discos de bandas estrangeiras, um som tosco, sem peso e sem qualidade. S ento tivemos a certeza que os caras no sacavam nada de Rock pesado. No dava pra consertar mais nada, a grana tinha acabado e ainda faltava pagar a mixagem. Quando o tcnico foi ao banheiro pegamos a fita e samos fugidos do estdio, corremos para o metr e desaparecemos. Era o jeito... Tudo pelo Metal", ironiza Roosevelt. Mesmo assim, a banda ainda relutou muito em lanar aquele lbum, pois todos estavam desapontados. Por fim, resolveram fazer apenas mil cpias, apenas para ter as msicas registradas. "Conseguimos o dinheiro para a prensagem, mas, ainda faltavam as capas. Apelamos para o patrocnio da Pepsi, que perpetuou seu logotipo na contracapa do disco em troca de uma modesta ajuda. No havia outra alternativa, estvamos completamente duros", explica "Bala". Apesar de todas as adversidades enfrentadas na produo e tambm com a censura, o disco Stress se tornaria o trabalho mais importante para o cenrio do Heavy Metal no Brasil. Com msicas rpidas e pesadas, letras inteligentes e de grande contedo, Stress colocaria definitivamente o seu nome na lista das mais cultuadas no pas. Ali estavam as faixas Sodoma e Gomorra, A Chacina, 2031, O Orculo do Judas, Stressencefalodrama, O Viciado, Mate o Ru, O Lixo e (Inferno Nuclear)faixa bnus, gravada em 83,s saiu no cd - os primeiros registros oficiais do Heavy Metal brasileiro. Sobre a falta de liberdade de expresso, comum no Brasil dos anos 70, o baterista Andr Chamon comenta: "Lembro que todas as minhas letras eram censuradas, mas eu sempre encontrava um jeito de substituir as palavras que eram consideradas subversivas por outras com a mesma pronncia. Por exemplo, na letra de O Lixo a expresso 'lixo humano' foi vetada porque, segundo os censores, denegria a imagem do ser humano. Bastou que eu retirasse duas letras, substituindo-a por 'lixo mano' para que fosse liberada. A msica O Orculo do Judas originalmente chamava-se Corpus Cristi e tambm teve que ser modificada". O show de lanamento do disco foi realizado no dia 13 de novembro de 1982, em Belm (PA), para cerca de vinte mil pessoas no estdio Estdio Lenidas Castro (Curuzu), do Paysandu Sport Club. "A festa foi memorvel e os que compareceram testemunharam esse feito histrico para uma banda paraense", destaca Roosevelt. O lbum Stress logo viraria raridade, pois a pequena tiragem rapidamente se esgotaria. Entretanto, uma delas chegou s mos de um produtor da Rdio Fluminense (FM 94,9) no Rio de Janeiro, a saudosa "A Maldita", que havia estreado a programao totalmente voltada ao Rock a 1 de maro de 1982. Com isso, a msica "Orculo do Judas" entrou na programao da Fluminense, tornando o Stress conhecido dos cariocas. Ao mesmo tempo, fanzines de todo o Brasil apontavam o surgimento da primeira banda nacional de Heavy Metal. "Um amigo nosso, Geraldo, mandou uma fita cassete com nossas msicas para o fanzine 'Rockers Friends Club' do Rio e o editor Toninho Lord fez uma matria especial sobre a banda e se encarregou de fazer cpias daquela fita e mandar para vrios outros fanzines do Brasil. Foi a partir dali que comeamos a nos tornar conhecidos, graas ajuda dos nossos aliados 'zineiros', que naquela poca era na xerox mesmo", destaca Roosevelt. Em 1983 comeava a explodir no Brasil o movimento "Rock Brasil", que comeou no Circo Voador (Rio) com a produtora e coordenadora Maria Ju, onde bandas de todo o pas disputavam uma oportunidade para tocar. Quando ouviu o disco do Stress, Ju ficou impressionada com o trabalho e resolveu lanar a banda. Esse show marcaria a estria do guitarrista Paulo Gui, substituindo Pedro Valente, que havia se mudado para a Frana. Roosevelt explica: "O Paulinho, antes de se tornar guitarrista e tocar com a banda paraense Apocalipse - outro marco do Heavy Metal no Par -, era admirador e freqentador assduo dos shows do Stress, desde o primeiro em 1977, no Teatro So Cristvo. outro guitarrista diferenciado e ganhou o lugar na banda no s pela tcnica e 'feeling' apurados, mas nos impressionou com a execuo perfeita de todos os solos de nossas msicas que havia tirado de ouvido, quando ainda era somente um admirador da banda. No precisamos nem ensaiar com ele, fomos direto para o palco". Quando o Stress desembarcou no Rio de Janeiro para a sua primeira apresentao fora de Belm, j logo no Circo Voador, todos ficaram surpresos com a popularidade e a expectativa criada para aquele evento. Na rdio Fluminense, rolava insistentemente uma vinheta que dizia: "Direto do Inferno amaznico... O Judas Priest brasileiro, a banda mais pesada do Brasil: Stress". No mesmo dia da apresentao foi ao ar um especial sobre a banda na Fluminense, onde tocaram todas as msicas do primeiro disco e foram comentadas pelos apresentadores do Especial Stress. Durante a passagem de som, tarde, j havia uma grande quantidade de pessoas se aglomerando nas grades circundantes do Circo, querendo conferir tudo sobre a mais nova sensao do Rock pesado brasileiro. "Lembro que nunca tnhamos visto um instrumento importado antes. Ficamos encantados com a guitarra Gibson do Tony Roqueiro, um timo guitarrista e cantor de Blues e Rock 'N Roll, que faria a abertura do show, junto com gua Brava, outra excelente banda de Hard Rock. Ficamos contemplando um amplificador Fender Twin, pequeno e simples, mas, que era absoluta novidade para ns, roqueiros tupiniquins. A passagem de som foi outra novidade, pois nunca tnhamos tocado num som com tamanha qualidade quanto aquele. Era incrvel ouvir nossas msicas com tamanho peso e clareza", explica "Bala". Na sada, a banda foi abordada pela pequena multido de curiosos para uma sesso de perguntas. Todos ficaram incrdulos e at um pouco desapontados quando descobriram que o Stress era uma banda de Belm do Par. A pergunta teve de ser respondida vrias vezes at que se dessem por conformados. Era uma noite de sexta-feira, abril de 1983, o Circo voador estava abarrotado, com pessoas at dependuradas pelas armaes de ferro da casa. Lotao mxima e recorde de bilheteria. Roosevelt comenta: "Ainda no tnhamos percebido, de fato, que tudo aquilo era por causa do Stress. S com o desenrolar dos acontecimentos foi que a ficha caiu. ramos a grande atrao da noite. Apesar das timas apresentaes das bandas de abertura, todas cariocas, percebemos que a galera queria algo mais: Rock Pesado - ainda no era muito difundido o termo Heavy Metal". A apresentao do Stress no evento foi feita por um roqueiro paraense e amigo da banda, Cezar Barbosa, que entrou s de sunga e bracelete de Metal, urrando "Que todo peso da face da terra caia sobre vs... E que o som de nossa guitarra entranhe em suas mentes... Com vocs a banda mais pesada do Brasil, Sstreeeesssss!!!". A primeira msica atingiu a todos como uma porrada impiedosa na moleira, Mate o Ru. O Circo quase veio abaixo. "Nessa hora percebi que os caras queriam ouvir aquilo. Me desculpe o bom e velho Rock and Roll, do qual sou f at hoje, mas naquele momento os jovens roqueiros do Brasil comeavam sua histria de paixo com o Heavy Metal nacional", exalta "Bala". A estria de Paulo Gui como guitarrista do Stress no poderia ter sido melhor, j que foi impressionante a mudana de comportamento quando os acordes pesados e a levada rpida do som da banda encheram o Circo Voador. "No tivemos tempo de fazer nem um ensaio juntos, pois eu estava morando em Manaus durante a transio de guitarristas. Paulo ouviu o disco e tocou tudo igualzinho! Nos juntamos os quatro somente naquele dia, mas felizmente saiu tudo perfeito, at os improvisos. Os outros msicos tambm foram muito festejados e foi nesse momento que ouvi pela primeira vez algum dizer que ramos a primeira banda de Heavy Metal do Brasil", comenta o baixista e vocalista. Com a empolgao e alta dose de adrenalina, os msicos pareciam ter incorporado o The Who e detonaram o equipamento. Os instrumentos haviam sido alugados para a banda e certamente estavam danificados. Mas a produtora Maria Ju estava encantada com a apresentao e se props a pagar todos os prejuzos. Alm disso, Ju apareceu com uma considervel soma, dizendo que era a parte da banda na bilheteria. Foi o primeiro cach do Stress! O show teve uma repercusso estrondosa no meio musical e a deram incio os boatos de que o Stress era a primeira banda de Heavy Metal do Brasil, incrivelmente originria de Belm do Par, para colocar ainda mais polmica no assunto. S com o passar dos anos o ttulo deixou de ser contestado e foi reconhecido pelas grandes revistas e zines especializados. Roosevelt comenta: "Foi difcil para os cariocas e para a imprensa em geral aceitarem que o Metal nacional tinha sido 'inventado' em Belm, na Amaznia. Ainda havia aquela infeliz idia de que naquela regio s havia ndios. Para tirar um sarro dessa situao, no segundo show que fizemos no Circo Voador o nosso apresentador foi vestido de 'ndio metalizado', roupa de ndio legtima e acessrios Heavy. Todos levaram a gozao na boa e nos receberam muito bem, praticamente nos adotaram, tamanha era a afinidade com o nosso som". A partir de ento os convites para shows no Rio de Janeiro tornaram-se freqentes, o que levou o Stress a mudar-se para a cidade maravilhosa no incio de 1985, mesma poca da realizao do "Rock In Rio", megaevento que colocou o Brasil na rota das grandes bandas. Nesse mesmo ano a banda assinou com a gravadora Polygram para a gravao de seu segundo lbum, Flor Atmica. Paulo Gui no pde viajar de Belm ao Rio e Alex Magnun assumiu a guitarra. Alex, por sua vez, trouxe o baixista J. Bosco, ambos de uma banda de Niteri (RJ) chamada Metal Pesado, que havia feito a abertura de um dos shows do Stress no Circo Voador. Realmente era um momento bom para o Metal, pois o "Rock In Rio 1" fez com que o cenrio se fortalecesse. Infelizmente houve problemas durante a produo de Flor Atmica, especialmente a gravao das guitarras, pois no momento de gravar constatou-se que os alto-falantes da caixa Marshall estavam estourados e no suportavam o volume necessrio para dar aquela distoro malvada que o Heavy Metal pede. Como no havia tempo a perder, o jeito foi gravar com o volume controlado, com isso obteve-se apenas uma discreta saturao, o que deixou as msicas sem o peso necessrio. "Depois disso, ao escutar o disco recm chegado da fbrica notou-se que a faixa Foras do Mal estava sem o vocal. Houve um erro do tcnico de edio que selecionou a verso sem voz, pois eles costumavam guardar para apresentaes em programas de TV e eventos onde alguns artistas fazem playback e cantam na hora, ao invs da verso correta que continha os vocais todos. Tivemos uma reunio com o produtor, Joo Augusto (hoje presidente da Warner), que disse no haver outra soluo a no ser lanar daquele jeito mesmo, pois cinco mil cpias estavam prensadas e no poderiam ser desperdiadas, mas que numa futura prensagem o problema seria solucionado. Resmunguei e esperneei bastante. At que Joo disse que se no sasse daquela forma no sairia mais. A tive de calar o bico", obeserva Roosevelt. Ainda assim, Flor Atmica foi bastante elogiado pela crtica especializada, que estampava manchetes sobre o grande feito a banda paraense que se tornaria a primeira brasileira de Heavy Metal a gravar por uma multinacional. Este trabalho lanou o Stress nacionalmente, pois a distribuio abrangeria o Brasil todo e logo o resto do pas tomou conhecimento e teve acesso ao som pesado dos paraenses. O show de lanamento do Flr Atmica em Belm (PA) foi um grande sucesso, com cerca de oito mil pessoas lotando o maior ginsio da cidade, o ESEFPA. O baixista e vocalista "Bala" conta: "Nunca tinha experimentado aquele sentimento antes. Vi o ginsio tremer de verdade, enquanto as pessoas pulavam e gritavam o nome da banda momentos antes do show. Confesso que algumas lgrimas desceram-me o rosto, s minha irm que estava muito prximo percebeu o que houve, ela tambm estava incrdula com a situao. Eu passara seis meses morando no Rio e nesse curto perodo o Stress teve uma ascenso meterica, se tornando uma unanimidade para os jovens de Belm. Afinal, representvamos os anseios de toda uma populao que gostaria de ver um artista paraense reconhecido nacionalmente, sem ter de tocar msica regional, e ns estvamos bem perto disso. ramos motivo de orgulho para todos, pois fazamos e ainda fazemos absoluta questo de deixar bem claro nossas origens". Duas semanas antes deste show de lanamento o Stress foi convidado a participar do programa "Festival dos Festivais", da Rede Globo. "Quando recebemos o telefonema achamos que era trote, custamos a aceitar que era verdade. Fomos escolhidos pelos produtores do festival para defender uma msica de um compositor de Recife chamado Das Trevas, que havia sido classificada para uma eliminatria que aconteceria na mesma cidade. Numa reunio com os produtores a composio nos foi apresentada numa fita cassete. Era uma msica fraquinha e sem nada de mais, com uma letra manjada que falava de crianas que morriam de fome e jovens que morriam por causa das bombas. Pelo fato de ela ter uma guitarrinha distorcida e um vocal meio agressivo eles resolveram que o Stress seria o melhor intrprete. Recebemos a msica uma semana antes da eliminatria e eu fiquei encarregado de fazer os arranjos, mas tive muito trabalho para deixar a msica legal. Alis, ela ficou tima, completamente diferente da verso original! Aproveitei apenas a melodia do refro, que era pegajosa. L no fundo fiquei achando que ela s foi classificada porque a Globo queria que tivesse uma msica de algum compositor de Recife, j que a abertura do megafestival teria sua primeirssima eliminatria naquela cidade. A letra continha muitos erros de portugus, de ortografia e de concordncia. Tudo foi corrigido e adaptado ao novo arranjo que ficou a cara do Stress", explica Roosevelt. Antes de viajar para Recife, os msicos estavam radiantes e cheios de expectativa, confiantes de que classificariam a msica, pois esta era a grande chance do Stress aparecer em rede nacional. "No primeiro ensaio, em um imenso ginsio onde aconteceria a eliminatria, aps tocarmos a msica pela primeira vez, o arranjador oficial Csar Camargo Mariano resolveu que defenderamos a msica sozinhos, sem nenhum outro instrumento da orquestra dando suporte. Segundo ele, o arranjo estava perfeito e no precisaria de nada mais. Havia trs palcos, onde cada atrao se arrumava para ganhar tempo nas mudanas. Porm, o Stress seria a nica banda que usaria os trs palcos simultaneamente para sua apresentao, justamente para no perder a performance la Iron Maiden, que era uma caracterstica da banda. A estrutura de som e iluminao era algo de cair o queixo, digna de show internacional. Seramos a banda que abriria o evento, e esta tudo perfeito at demais. A as coisa comearam a desandar... No meio do ensaio chegou o tal de Das Trevas, meio puto da vida, dizendo que a msica dele tava muito diferente, com muita melodia. Comeou a discutir com a produo e resolveu que queria tocar junto com a gente. Depois de muita discusso os caras da Globo caram na besteira de concordar com ele. Tnhamos mudado o tom da msica, que ficou esquisito para ele cantar. O jeito foi botar a verso dele no meio da nossa e a msica ficou com quase dez minutos... Ficou ridcula, ainda mais com aquele cara mal encarado no meio da banda, como se fosse parte dela. Voltamos paro hotel extremamente desapontados. Tivemos uma conversa com os produtores, que explicaram que no queriam criar caso com um compositor da cidade, pois a imprensa local j estava fazendo campanha para que o pblico presente protestasse logo na abertura do evento se o seu conterrneo no fosse o intrprete da msica. Havia uma clusula na inscrio do festival pela qual o autor cederia os direitos de interpretao para quem fosse indicado pela Globo. Mas, nesse caso, a Globo abriu as pernas. Resolvemos que no tocaramos junto com o cara por achar que ficaramos atrelados imagem dele por muito tempo e todos achariam que a banda era daquela forma. Na queda de brao levamos a pior, optaram por manter o Das Trevas como intrprete. Nos bastidores todos diziam que a nossa classificao era certa, eles tinham uma boa noo de quem se classificaria. Acertaram todos os 'palpites'. Deixaram escapar tambm que o cara era carta fora e no se classificaria de jeito nenhum. O pior que em Belm a imprensa toda havia divulgado que abriramos aquele festival. Foi uma decepo total, quando chegamos cidade para o show de lanamento do Flr Atmica, dias depois. Nos questionavam sobre o que havia acontecido e tivemos de contar essa histria muitas vezes. s vezes, a gente se questiona se teria sido melhor ter tocado com o cara, se conseguiramos classificar aquela msica, apesar da forma 'frankstnica' que ela assumiu com a entrada dele. Ficaria a imagem da banda atrelada dele ou as pessoas entenderiam que aquela formao era o Stress mais o Das Trevas? Por quanto tempo teramos de carregar o cara nas costas? No teremos essas respostas", explica "Bala". O fato que a grande chance no veio. Mas, Heavy Metal brasileiro na Globo, num festival de MPB, em rede nacional? Se isto algo utpico demais para se imaginar nos dias de hoje, imagine h vinte anos... Entretanto, o momento para o Rock nacional era timo, bandas de todo o Brasil comeavam a despontar na mdia. O Stress comeava a tocar em vrias cidades brasileiras. Num certo momento as gravadoras, rdios FM e programas de TV resolveram dar preferncia para bandas que faziam "Rock" com guitarras sem distoro, com letras e sonoridade simples, de fcil assimilao pelo grande pblico. Para que produzissem o terceiro disco da banda, a Polygram, atravs do produtor Joo Augusto, surgiu com a proposta para que o Stress "aliviasse" o peso de suas composies, fazendo um Rock mais "comercial", numa linha mais adequada tendncia Pop do mercado, caso contrrio o som pesado no lhes interessava mais. Por no se curvar s tais exigncias mercadolgicas e, principalmente, em respeito ao seu pblico, aos ideais que alimentavam o orgulho de ser a banda pioneira no Metal brasileiro, o Stress resolveu no mudar o seu estilo e com isso no renovou o contrato com a gravadora. A banda continuou fazendo shows, mas em nmero menor do que antes. "Aprendemos que as bandas que no tinham o suporte de uma gravadora dificilmente eram chamadas para os grandes eventos e ficavam limitadas a shows menores", observa Roosevelt. Alm disso, em meados de 1986 Alex Magnum resolve deixar a banda alegando que tinha outras prioridades e que j no estava mais querendo tocar Rock pesado. "O cara arranjou uma namorada que amoleceu o corao dele, deixou-o romntico demais para o Metal", destaca "Bala". E no foi s, pois Bosco saiu em seguida para trabalhar num emprego convencional. "Ele ainda gostava muito de tocar, que as presses familiares e a necessidade de estabilidade falaram mais alto. Hoje em dia ele msico assumido e ganha a vida com o que gosta", conta Roosevelt. Com isto, ocorre a entrada de Christian na guitarra e Rick no baixo, com o Stress renovando as energias para continuar na luta. "Bala" comenta com entusiasmo: "Foi uma das melhores formaes que j tivemos! Os caras eram extremamente competentes e performticos... Parecamos uma banda estrangeira no palco: visual caprichado e movimentao la Maiden. Era um timo show de se ver e ouvir. Lembro que em um festival de Juiz de Fora/MG, realizado em dois dias e com todas aquelas bandas conhecidas do Pop Rock nacional e algumas poucas de Metal, como Dorsal Atlntica e Overdose, quando chegamos ao estdio de futebol, quem estava tocando era o Cazuza, quase no incio de sua carreira solo. Seramos a prxima atrao e no intervalo das msicas dele a platia comeava a gritar o nosso nome to alto que dava para ouvir nos camarins de forma emocionante. O cara da produo disse que aquilo j estava ocorrendo desde as primeiras bandas. Alguns mal-educados jogavam latas e outros objetos no palco. Cazuza pediu para a galera ter pacincia que o Stress j estava no camarim e que logo entraria. Foi quando o canho seguidor focou no Christian que estava assistindo ao show atrs da bateria. Foi uma gritaria ensurdecedora. O cara teve de terminar o show dele antes do previsto. Quando entramos foi o pnico, pois todos cantavam nossas msicas! Era quase inacreditvel... Tivemos de voltar ao palco trs vezes para o bis. A produo do evento gostou tanto que nos convidou para ficar para o dia seguinte do festival com todas as despesas pagas. A foi s zoeira, entramos no meio dos shows do Dorsal, Overdose, Celso Blues Boy e foi uma festa". Sobre o line-up da poca, Roosevel comenta: "Aprendi muito com o guitarrista Christian, que passara grande parte de sua vida morando no EUA, com sua me brasileira e pai americano. Ele tinha todo o conhecimento de como um 'pop star' deveria se comportar, no palco e fora dele. Sabia todos os truques pra descolar um visual de artista, desde como produzir roupas de roqueiro, trabalhar os cabelos, at a performance de palco. O cara nasceu para ser artista, sem falar que era um cara bonito, fazia muito sucesso com as garotas. Nos tornamos muito amigos, eu ele e Rick, que tambm era um amigo formidvel, alm de excelente baixista - seguro, tcnico, preciso e performtico. Foi uma fase que jamais esquecerei. Tnhamos uma banda e um show excelentes, eu estava livre para correr no palco e quando eu saa a minha ausncia era pouco notada, pois os caras arrebentavam na performance! Fizemos muita farra juntos durante as viagens. Era comum naquela poca bandas viajarem no mesmo nibus, ficarem nos mesmos hotis para tocarem nos mesmos eventos as bandas do Rock Brasil dos anos 80, como Plebe Rude, Legio Urbana, Baro Vermelho, RPM, Ultraje A Rigor, entre outras. Eram nessas ocasies que baixava o esprito do 'rocker'. Enchamos a cara e travamos toda a tietagem, as melhores, logicamente. Fazamos tudo isso sem usar nenhum tipo de droga (a no ser o lcool). Falo isso para dar meu testemunho de que era perfeitamente possvel estar nesse meio sem entrar nas ondas furadas". 1987 Era o ano de 1987 e o Stress no conseguira uma nova gravadora. A unio to decantada no incio do movimento deu lugar s brigas ideolgicas e ao radicalismo descontrolado. Com dificuldades de se manter morando no Rio de Janeiro, os paraenses do Stress resolveram parar e esperar uma reviravolta naquele quadro adverso para o Rock mais pesado. Alguns anos depois de ter voltado para os Estados Unidos, onde nascera, o guitarrista Christian continuou sua batalha para se estabilizar como msico profissional por l. O reconhecimento no tardou. Num determinado momento Christian dividia apartamento com o tecladista do Faith No More. No demorou muito para que ele fosse convidado a integrar a banda. A alegria foi tanta que durante uma festinha de comemorao Christian perdeu a vida. "Ainda custo a acreditar e me emociono toda vez que tenho de falar ou, simplesmente, lembrar do assunto. Disseram-me que foi uma parada cardaca por motivos que no ficaram muito claros. No quero entrar nesse mrito, pois para mim vai ficar a lembrana do amigo que me ensinou muita coisa e do grande msico e artista com quem tive grandes momentos", observa Roosevelt "Bala". Com Christian na guitarra o Stress gravou em 1986 uma fita Demo com quatro msicas, jamais lanadas. Roosevelt conta: "O Christian era amigo pessoal do Carlinhos, guitarrista do Ultraje, que tinha um baita estdio de gravao na casa dele em So Paulo. Era incrvel como todos gostavam do Chris, que fazia amizade muito facilmente. Ele nos convenceu a fazer essa gravao dizendo que o estdio e o equipamento eram de primeira. De fato, era o melhor equipamento que eu j tinha visto. Tinham duas paredes cobertas inteiramente at o teto de amplificadores Marshall, com cabeote e caixas duplas, uma de cada lado, para o baixo e para a guitarra. Quando o Chris ligou a guitarra e deu um acorde, na hora em que eu estava passando na frente da parede, levei um susto to grande que no esqueo at hoje. O movimento dos alto-falantes deslocava o ar e parecia que tinha um ventilador ligado, porque o cabelo da gente vinha pra trs. Quando ele foi gravar a guitarra o som era to alto e poderoso que ele teve que sair da sala e ficar dentro do banheiro para poder ouvir a base da msica j gravada no fone de ouvido. Foi a que eu entendi o porqu das gravaes internacionais terem um timbre de guitarra que ningum conseguia parecido aqui no Brasil. J tnhamos bons amplificadores no Brasil, Marshall, inclusive. Mas aquela massa sonora poderosa s se conseguia com a presso proporcionada pelo volume no talo de uma parede de amplificadores como aquela. Foi o melhor som de guitarra que conseguimos at hoje! Ainda tenho o rolo com as quatro msicas e estamos pensando em lan-las futuramente como faixas bnus num prximo disco, para deixar registrada nossa homenagem ao Christian, que deve estar agitando o paraso e alegrando o Senhor com sua guitarra metlica". Os anos passaram e quase nada mudou at que em 1995, Andr Chamon, Roosevelt "Bala" e Paulo Gui se reuniram em Belm e gravaram um CD experimental intitulado Stress III, com msicas inditas que iam do Hard Rock ao tradicional estilo Stress. Com uma tiragem de quinhentas cpias, o disco tornou-se, tal qual os outros dois, uma autntica raridade. Na poca o Stress realizou shows de lanamento em Belm e no Rio de Janeiro. Desde ento a banda passou a fazer uma apresentao por ano em Belm, sempre com casa cheia, para atender ao pblico que continuava fiel e crescente, pois a cada nova apresentao uma nova legio de fs adolescentes e jovens msicos invadiam os teatros para conferir as apresentaes da lendria banda paraense. O melhor de tudo foi o relanamento em CD e vinil do marco histrico, Stress, pelo selo Dies Irae, j que atravs deste lanamento, a banda resolveu que era hora de voltar aos palcos! Desta forma, o agora trio fez um show oficial de retorno em Belm (PA) no dia 6 de maio de 2005, para um pblico de trs mil e quinhentas pessoas que superlotaram o Memorial dos Povos. "Centenas de pessoas ainda ficaram de fora, j que o local no comportava mais ningum e tiveram de se contentar em assistir ao show pelo megatelo instalado na parede de um prdio vizinho, com sonorizao simultnea", explica Roosevelt. Empolgados com tamanha repercusso, Andr Chamon (bateria), Roosevelt "Bala" (baixo e vocal) e Paulo Gui (guitarra) se apresentaram a 13 de maio, no teatro Estao Gasmetro, em Belm, onde foi gravado o primeiro DVD, que dever ser lanado em janeiro de 2006, possivelmente acompanhado de um CD ao vivo. "Nunca tivemos um registro oficial de imagens da banda, at as poucas fitas de VHS com alguns shows nossos se perderam ao longo dos anos. uma pena, pois tivemos muitos momentos memorveis que mereciam registro. Gravamos o DVD nesse teatro porque ele oferece boas condies de palco e estrutura de som e iluminao. Sabamos que no teramos um pblico em massa, pela prpria capacidade do local, que no permitia pessoas excedentes ao nmero de acentos (400), e que a maioria dos fs da banda no teriam condies de pagar ingresso em teatro. Foi pensando nisso que na semana anterior gravao fizemos uma apresentao com portes abertos para trs mil e quinhentas pessoas. Outra coisa que fizemos absoluta questo, foi de gravar as msicas conforme o andamento do show, sem repeties, com todos os erros e acertos que uma apresentao ao vivo pode ter, captando toda a essncia, o clima e a interatividade com o pblico, como eram os show gravados nos anos 70, sem nenhum overdub ou maquiagem de estdio, ao vivo de verdade", enfatiza Roosevelt. A turn de retorno incluiu a indita passagem por So Paulo, ocorrida na primeira edio do "Heavy Rock Revival", realizado no Blackmore Rock Bar, no ltimo dia 10 de setembro (ver resenha na ed. # 82, Roadie Crew), e que contou ainda com o Vrus, Salrio Mnimo e Comando Nuclear. Novas datas de shows esto sendo agendadas para as principais capitais do pas ainda este ano e uma turn ainda maior dever comear a partir de 2008, logo aps o lanamento do DVD. Para os amantes do Heavy Metal cantado em portugus, o pioneiro Stress est de volta.
INFLUÊNCIAS
Led Zeppelin,Saxon,Judas e Iron.
INTEGRANTES
André Chamon (Bateria). Paulo Gui (Guitarra). Roosevelt Bala (Voz e Baixo).
OUTRAS MÚSICAS
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