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CRAVO CARBONO - BANDA DA SEMANA

[17.07.07] [ 11:31] - Por: Thiago Viana

COM CÓRTEX, CRAVO CARBONO DICUTE 'REGIONALICE' E ABRE SUAS MÚSICAS PARA PARCERIAS AUTORAIS NA WEB 

No início deste mês o Cravo Carbono lançou pela Ná Records o segundo CD da banda , que recebeu o nome de "Córtex". O vocalista, Lázaro Magalhães, bateu um papo com o Belrock durante um intervalo nas suas atividades jornalísticas na 59ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC , que aconteceu em Belém na semana passada. Na conversa rápida de pouco menos de 30 minutos, Lázaro fala do surgimento da banda, critica o regionalismo convencionado, conta a história de algumas composições da banda e fala sobre o novo disco.

BELROCK: Como foi formado o Cravo Carbono?

LÁZARO MAGALHÃES: A banda começou a se formar em 96. Alguns conhecidos de bairro (Jurunas e Cidade Velha) se juntaram com uma galera de um grupo do curso de comunicação da federal. Eu e o Dickson chamamos alguns colegas pra tocar de sacanagem mesmo, sem compromisso nenhum. Desde essa época a gente sempre quis fazer músicas próprias e coisas diferentes, com mistura de ritmos. Nessa época a gente ensaiva em uma garagem no Jurunas, na casa do Alexandre , que foi um dos primeiros bateristas da banda, e aí com o tempo entrou o Pio Lobato (guitarra), o Vovô (bateria) e o Bruno (Guitarra).

BELROCK: Em 2001 o Cravo Carbono lançou primeiro CD, chamado " Peixe Vivo", e só depois de seis anos foi lançar o segundo álbum. Quais as principais diferenças entre os dois trabalhos?

LÁZARO MAGALHÃES: Na verdade lançamos uma "demo" chamada "Mundo Açu" antes do "Peixe Vivo". Essa "demo" teve uma tiragem de 150 cópias caseiras, reunindo um material ao vivo que a gente tinha gravado de apresentações em festivais. Nessa época era a única coisa que a gente tinha. Aí o Beto Fares, do Balanço do Rock, chamou a gente pra participar do "Projeto Container", e resolvemos tentar fazer um disco. Fomos lá, gravamos uma tarde inteira, pegamos a gravação e juntamos com mais duas faixas que o Pio fez em casa e lançamos o "Peixe Vivo". "Córtex" foi mais trabalhado. Tivemos apoio de leis de incentivo, da Fundação Y.Yamada e o processo também foi muito caseiro. Gravamos em estúdio apenas bateria e voz. O resto foi em casa mesmo, no computador, e isso foi legal porque permitiu que a gente pudesse fazer experiências com as músicas. Depois de pronto o Ná chamou a gente e falou: "'vamos prensar pela Ná Records". E o disco saiu.

BELROCK: O som do Cravo Carbono é bastante diversificado e não deixa de lado elementos regionais, mas vocês fogem desses rótulos. Como é essa relação do regional com som que você fazem?

LÁZARO MAGALHÃES: O que define o que é regional é a metrópole. É uma questão de identidade e a gente tem uma visão contrária. Não queremos esse rótulo. Essa "regionalice" não cabe pra gente, e mais do que isso: esse regionalismo, sob esse ponto de vista, deve ser combatido. Não somos regionais p.... nenhuma. Estamos em uma cidade como qualquer outra e, sob outro ponto de vista, poderíamos dizer que o regional é o sul, ou sudeste... É uma questão de se impor no mercado pop. Mostrar que temos tanto valor quanto eles. O que eu digo é tão importante quanto o que eles dizem, e se não fosse por essa posição, o Cravo Carbono não faria o que faz musicalmente falando. Tudo deve ter a mesma importância: o rock, o siriá, o samba. Se for pra ser "regional" do jeito que se pensa e se fala hoje, submissos a uma designação vinda de outras metrópoles, a gente não quer. A gente prefere ser qualquer outra coisa, desde que válida para gente se encontrar enquanto cidadãos do planeta. Cidadãos com identidades e diferenças.

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BELROCK: As composições do Cravo remetem a um cenário extremamente urbano. Isso seria um elemento adverso a essa idéia de regionalismo?

L.M.: Acho que a gente tem que falar do que a gente vive. Eu não conseguiria fazer o que muitos compositores fazem, que é vestir uma camisa de uma coisa que eu não vivo ou não vivi. Minha vida é urbana e eu tenho toda uma visão ligada a isso. Jamais diria "ah eu fui ao rio pescar, fui fazer farinha", porque eu não vivi isso. Soaria falso. O Cravo é urbano sim e vai falar sempre de algo que a gente vive ou já viveu. Mas tem um outro detalhe importante também. Algumas bandas dizem: "Pow, vocês são muito urbanos e é exatamente isso que a gente queria fazer e tal...", e isso soa também estranho, como se a gente esquecesse daquilo que o caboclo fala, do que ele vive, e isso não é bem assim. Esse conteúdo também é importante.

BELROCK: E por falar em composições o Cravo tem letras curiosas que surgiram de situações tão curiosas quanto. Café.Br, por exemplo, tem uma história bem simples e interessante, dá pra contar pra gente?

L.M.: (risos) Café.br tem uma história interessante sim. Eu trabalhei por cinco anos eu órgão público e como todo órgão público ele tinha seus problemas, limitações, enfim... E a gente sabe que todo órgão público tem o seu cafezinho para os funcionários. Pois bem, lá onde eu trabalhava, apesar de ser um órgão público, não tinha o cafezinho porque todo dia faltava alguma coisa. Um dia faltava o açúcar, no outro não tinha pó, depois faltava o gás...  e na verdade tudo isso era uma grande "enrolação", porque o que faltava mesmo era a grana. E as pessoas chegam a filosofar nessa letra enquanto ela não passa de uma brincadeira com uma situação que tem, na verdade, uma questão um pouco maior por trás de tudo. Nós no Brasil nos acostumamos a ver os problemas nas coisas mínimas e não no que é central da questão. Não é que não tenha café porque falta açúcar, ou gás. Não tem café porque o país está indo mal mesmo. As pessoas não têm dinheiro. Falta distribuição de renda.

BELROCK: E o Marx Marex existe?

L.M.: (risos) Existe sim. Eu tava em uma sorveteria no bairro de Batista Campos, esperando uma carona e aí passou um cara catando lata. Olhando aquele cara ali fazendo aquilo, eu comecei a pensar: "Pow, mas esse cara é o cara mais moderno que eu conheci! Um profissional de ponta, catando aquilo que a gente joga fora, pra reciclar...". E em se tratando de desenvolvimento sustentável, que é o que mais se fala, e aqui mesmo no SBPC, aquele cara, ou essas pessoas que são vistas como "nada" pela sociedade, na verdade estão com o pensamento e uma prática muito à frente dos nossos. E essa música na verdade é uma homenagem pra essas pessoas.

BELROCK: Voltando ao disco, vocês estão construindo um site onde serão disponibilizadas algumas trilhas do CD pra galera poder construir outras coisas. Como vai funcionar isso?

L.M.: Isso é um projeto B do disco. As músicas já estão na internet desde muito antes do lançamento e a nossa grande vontade era poder fazer isso mesmo, separar as trilhas e deixar disponível para que as pessoas se permitam criar outros trabalhos. Seria uma maneira de a banda poder interagir com o público e com outros artistas. Eu acabei de contar as histórias de algumas letras, mas o barato é dar a oportunidade do público tirar suas próprias conclusões e dar outros sentidos aos trabalhos. E é isso que a gente quer com o "Córtex".

BELROCK: E pra terminar, próximos projetos do Cravo Carbono e os agradecimentos.

L.M.: Bem, agora o CD vai dar bagagem pra gente poder voltar aos festivais. Inclusive a gente estava "parado" por conta de não ter algo novo. Por enquanto trabalharemos na divulgação do "Córtex" e começaremos a preparar o próximo CD, que já tem até nome, "Incolor", e esperamos que seja lançado já no ano que vem. Coisas muito novas estão sendo preparadas pra ele. Mas antes disso, é legal agradecer a todo o pessoal que deu apoio ao novo disco: o Jeová (Coisa de Ninguém), Sammliz (Madame Saatan), Moriel Padro, que gravou algumas vozes, Marco Tuma, que gravou vozes e emprestou a casa dele pra gente ir lá gravar e tomar cerveja, e, é claro, à galera do Cravo Carbono por ter segurado a onda nestes três anos de produção. Passamos um tempão fora do ar, mas estamos de volta, certamente, também por causa do esforço deles.

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        Agora que você já conhece o Cravo Carbono, não deixa de visitar o perfil da banda aqui no Belrock, lá você vai poder ouvir “Canção à prova d’água”, faixa do CD “Córtex”.

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